Microcrédito cresce e muda a vida de empreendedores

4/10/2009

Empréstimos de bancos populares podem ser menores que R$ 1.000 e vão até para informais Volume de contratos é de R$ 155 milhões, 112% a mais que em 2007

Ana Paula Pedrosa

Com cinco empréstimos, de R$ 2.000 cada, ao longo de oito anos, Derneval Gonçalves, conseguiu montar e equipar seu próprio negócio. A venda de pães, biscoitos, salgados e bebidas não alcoólicas começou informal na casa de "seu Dedé" em 2001. Hoje, o negócio continua no mesmo lugar, mas foi formalizado há alguns meses.

Os empréstimos, conseguidos junto ao Banco do Povo, que alavancaram o negócio de seu Dedé foram feitos pelo sistema de microcrédito, modalidade que está em crescimento no Brasil. Em junho deste ano, último dado disponível no Banco Central, o volume de contratações chegou a R$ 155,638 milhões, 112% a mais do que há dois anos.

Foram 119.898 contratos, com valor médio de R$ 1.298,09. No mesmo mês de 2007 foram 80.750 contratos, com valor médio de R$ 909,23. O microcrédito é destinado à população de baixa renda e tem que ser aplicado em atividades produtivas formais ou informais. Os recursos não podem ser para consumo. Para garantir a correta utilização, assessores de crédito ajudam o cliente a calcular o valor necessário e a organizar o negócio.

Seu Dedé, por exemplo, foi encaminhado a um curso de empreendedorismo, apesar de ter experiência de 20 anos trabalhando como padeiro. "A gente pensa que entende das coisas e descobre que não entende, só sabe da prática", diz. Antes de conseguir o microcrédito, ele foi recusado em bancos tradicionais. "Eu não conseguia porque não tinha comprovação de renda", conta.

Mesmo formalizado, ele continua usando o microcrédito. "A prestação é fácil de pagar. Eu não sou empresário; empresário é quem tem dinheiro. Eu só tenho CNPJ", define. Com o último empréstimo, feito em julho, ele comprou um freezer. Os anteriores foram destinados à aquisição de estufa e de matéria-prima.

Compra de matéria-prima também foi o destino dos R$ 500 que Maria das Graças Pimenta pegou pelo sistema de microcrédito do Banco do Povo há nove anos. Ela usou o capital para iniciar a produção de material de limpeza, fabricado em casa e vendido porta a porta. "Foi a minha salvação. Eu não tinha como começar a fazer os produtos. Estava desorientada", lembra. Desde então, foram mais sete empréstimos que ajudaram a tornar o negócio, que é informal, sustentável. "Hoje eu não preciso mais. Já tenho uma freguesia formada", orgulha-se.

Entusiasmo. Seu Dedé, feliz com seu negócio, brinca: 'Eu não sou empresário; empresário é quem tem dinheiro, eu só tenho CNPJ'
FOTO: BRUNO FIGUEIREDO

Estatística
América Latina usa pouco

A América Latina tem 12,1 milhões de famílias que poderiam ser atendidas por programas de microcrédito, mas apenas 5,8% delas, cerca de 700 mil famílias, usam esse financiamento. O percentual de atendimento à demanda é o mais baixo entre todos os continentes.

As informações são do estudo "Microfinanças: o papel do Banco Central do Brasil e a importância das cooperativas de crédito", realizado pelo Banco Central. Na África e Oriente Médio, onde 61,5 milhões de famílias são potencialmente tomadoras de microcrédito, a modalidade atende a 6,2% da demanda. A Ásia tem o maior número de famílias aptas ao microcrédito, 157,8 milhões, e os programas chegam a 14,7 milhões, o equivalente a 9,3%

A Europa tem o maior percentual de atendimento. No continente, 11,4% das famílias que precisam têm acesso ao microcrédito. (APP)

 

Inadimplência praticamente não existe

A inadimplência é muito baixa entre quem usa o microcrédito. Na regional mineira do Banco do Nordeste, apenas 0,96% das pessoas não pagam o que tomam emprestado. O banco usa o sistema de empréstimo em grupo, no qual um é corresponsável pela dívida do outro. O modelo é bem- sucedido em outros países.

No Banco do Povo a inadimplência também é próxima de zero. "Fazemos uma análise do negócio antes de emprestar. E como o nome é o patrimônio da pessoa, ela paga", diz o gerente de crédito, Mário Rocha Coelho. (APP)

 

Banco do Nordeste
Informais são a maioria

Os micro e pequenos negócios informais são a maioria no microcrédito. No Banco do Nordeste (BNB), que tem o maior programa do tipo do país, o Crediamigo, os informais respondem por mais de 70% dos empréstimos. "Fornecemos crédito a quem não tem opção", diz o coordenador do Crediamigo em Belo Horizonte, Eduardo Machado.

O Crediamigo está em 65 municípios brasileiros. Em Minas Gerais, é oferecido na área de atuação do banco, no norte do Estado, e em algumas cidades da região metropolitana de Belo Horizonte. A regional responsável por Minas Gerais e Espírito Santo tem 19 mil clientes, e o volume de empréstimos deve chegar a R$ 300 milhões neste ano, 25% a mais do que em 2008. No Banco do Povo, que opera principalmente com recursos de bancos de fomento, como BNDES e BDMG, os informais são 80% da clientela. "São clientes que não têm acesso a outro tipo de crédito porque eles não têm como comprovar renda, faturamento, não têm documentação do negócio", diz o gerente de crédito, Mário Rocha Coelho.

A instituição tem 1.480 clientes em Belo Horizonte e cidades da região metropolitana. A carteira de empréstimos é de R$ 1,7 milhão. (APP)

Entrave
Burocracia trava crédito maior
Apenas 1% do exigido pelo BC foi aplicado em junho no microcrédito

No sistema bancário, o trabalhador informal encontra poucas opções para financiar seu negócio. Em geral, ele usa o Crédito Direto ao Consumidor (CDC) ou outra modalidade destinada à pessoa física e que tem juros maiores do que as linhas para pessoas jurídicas.

Enquanto isso, a maior parte do dinheiro que deveria ser destinado ao microcrédito fica recolhida no Banco Central (BC) por falta de aplicação. A autoridade monetária determina que 2% do valor dos depósitos à vista seja aplicado em microcrédito. Em junho, o valor seria de R$ 2,73 bilhões, mas apenas R$ 27,953 milhões foram aplicados, o que corresponde a 1% do exigido.

O assessor da diretoria executiva da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Ademiro Vian, diz que a modalidade não é usada porque as normas são muito rígidas e "engessam" a ação dos bancos. "Há entraves que impedem a pessoa de tomar crédito. Aí, ela procura outras modalidades", diz.

Pelas regras do BC, o microcrédito pode ser concedido a pessoas que têm até R$ 3.000 de saldo médio ou empresas com até R$ 15 mil de saldo bancário médio. O valor máximo do empréstimo é de R$ 10 mil para o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo e Orientado (PNMPO), que exclui crédito para consumo. A taxa máxima de juros tem que ser de 2% ao mês.

Segundo Vian, para aplicar todo o dinheiro que deveria ser destinado ao microcrédito, os bancos teriam um gasto muito grande porque seriam necessários "milhões" de operações de pequeno valor.

Opções. Na contramão da maioria das instituições, o Banco do Brasil ampliou a oferta de microcrédito no fim de agosto. O teto do financiamento da linha BB Crédito Pronto, que atende ao público de menor renda, subiu de R$ 1.000 para R$ 2.000, e o prazo máximo de pagamento passou de 24 meses para 48 meses. O prazo mínimo continuou a ser de quatro meses.

O BB também reduziu e escalonou as taxas de juros de acordo com o prazo de contratação. A linha que tinha juros fixos de 2% ao mês, por exemplo, teve a taxa reduzida para 0,99% para contratos com prazo de até 12 meses.

O BB Pronto existe desde 2004 e, desde então, já liberou R$ 2,5 bilhões para 5,2 milhões de clientes.

O outro banco do governo, a Caixa Econômica Federal (CEF), fez o caminho inverso. A instituição já teve uma linha destinada aos pequenos informais, a Caixa Fácil, mas, com a lei do microempreendedor individual, que estimula a formalização, o banco substituiu a linha por uma destinada a pequenas empresas.

O pacote inclui conta corrente, cheque empresa com juros de 2,87% ao mês, cartão de crédito empresarial e capital de giro. Os empréstimos são de até R$ 1.600, dependendo da necessidade e da capacidade de pagamento.

O superintendente regional da CEF, Rômulo Martins de Freitas, diz que a ideia é estimular a formalização dos micro e pequenos empreendedores. "Passando para a formalidade, o trabalhador tem acesso a crédito em bancos, benefícios como licença-maternidade e aposentadoria e condições de planejar seu negócio", diz. A formalização pode ser feita pelo site www.portaldoempreendedor.gov.br.

Em Bangladesh US$27,00 ajudaram 42 pessoas

O ano era 1976, e o cenário, Bangladesh, um pequeno país asiático arrasado por catástrofes naturais e pela pobreza. Nesse contexto e com US$ 27, o economista Muhammad Yunus, então chefe do departamento de economia de uma das mais importantes universidades locais, começou a escrever a história do microcrédito, que, em 2006, rendeu-lhe o prêmio Nobel da Paz.

"Ele estava tentando ajudar uma aldeia, mas, de alguma forma, conseguiu mudar o mundo", disse o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que concedeu a Yunus a Medalha da Liberdade, maior condecoração civil do país.

A universidade de Chittang, onde Yunus trabalhava, era vizinha a uma aldeia onde 42 pessoas dependiam de empréstimos de agiotas para produzir e sobreviver. A soma das dívidas era de US$ 27, mas os juros altíssimos não permitiam que as pessoas rompessem o ciclo de dependência.

Inicialmente, ele tentou que o sistema bancário local emprestasse dinheiro às pessoas com juros menores, mas, como elas não tinham garantias formais a oferecer, o dinheiro foi recusado. Então, Yunus, hoje chamado de "o banqueiro dos pobres", criou o Grameen, banco que faz pequenos empréstimos a trabalhadores informais tendo como garantia apenas um grupo solidário. A inadimplência é menor do que 1%, e o sucesso da iniciativa aparece em números.

Hoje, o microcrédito chega a 40 países e já emprestou cerca de US$ 7 bilhões a mais de 7 milhões de pessoas. (APP)

 

Economia na gestão do estoque

O estoque da Ávila Autopeças é garantido por pequenos financiamentos, de cerca de R$ 4.000, que o proprietário Eduardo Ávila paga em 12 prestações. "Eu economizo porque pago o fornecedor a vista, com desconto, e o empréstimo, com juros menores", diz. A empresa funciona há 20 anos e, com a estabilidade, entrou na mira dos grandes bancos. "Tem gerente que liga oferecendo empréstimo, mas eu prefiro continuar no microcrédito mesmo, que não tem burocracia e tem boas condições",diz. (APP)

 

Minientrevista com Wilson Benício Siqueira
"R$ 300 podem fazer uma revolução na vida"

Qual a importância do microcrédito para a economia? O microcrédito se destina à população que normalmente não tem acesso ao crédito. É importante porque faz com que essas pessoas tenham garantia para seu negócio funcionar. A médio prazo, para a economia, faz uma política de inclusão.

O microcrédito pode substituir o assistencialismo na destinação de renda aos mais pobres? É isso mesmo. Tira o Estado papai e cria o incentivador. O pano de fundo é a política de inclusão. Produzir riqueza é sempre melhor do que produzir pobreza. O microcrédito é um programa que tem que ser mantido e incentivado. Esse dinheiro movimenta a economia, gera renda, que acaba no comércio. A indústria também agradece porque vai produzir mais. Tem um efeito cascata.

Pouco dinheiro pode fazer diferença? Se souber aplicar, R$ 300, R$ 500 fazem muita diferença. A pessoa compra uma máquina, faz estoque. É uma revolução na vida dela. E o povo é honesto. Eles pagam. A inadimplência é baixíssima.

O sistema financeiro tradicional tem poucas opções de microcrédito. Por que eles não se interessam por essa modalidade? Ela exige novas formas gerenciais, um departamento específico, novos métodos, e o retorno não é no curto prazo. Mas o Banco do Nordeste e o Banco do Brasil fazem um trabalho muito bom nessa área.

Como evitar que o crédito vire uma dívida e prejudique em vez de ajudar? O dinheiro tem que ser instrumento para o negócio, tem que ser na medida. De novo, o Banco do Nordeste e o Banco do Brasil dão orientação para esse cálculo. E o Conselho Regional de Economia tem a cartilha "Sabendo usar não vai faltar", que ensina a fazer orçamento de maneira bem didática.

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